Transporte público de Brasília está em péssimas condições

Quando Brasília foi criada, os seus idealizadores pensaram em uma cidade que seria habitada por uma população que tivesse um alto poder aquisitivo e onde cada um pudesse ter o seu próprio carro. Em parte eles acertaram, porque a maior parte da população brasiliense (52%), hoje, pertence à classe média para cima, segundo pesquisas realizadas pela Fundação Getúlio Vargas. Só que aqueles que não foram tão afortunados,alguns descendentes dos operários que construíram a cidade e de imigrantes de outras partes do país, também precisam se locomover. Brasília, como toda cidade grande, passou a ter um sistema de transporte público, e esse sistema tem problemas de superlotação, instalações ruins, falta de ônibus para todo mundo, paradas em estado precário, falta de horário fixo para passar e má vontade em atender a população, por parte dos profissionais da empresa de transporte.

A população reclama das instalações dos ônibus, em péssimo estado, bancos rasgados e pichados por vândalos, chão sujo de papel de comida, janelas emperradas, portas com defeito, placas com defeito que não deixam ver, com definição, o itinerário dos ônibus, tetos esburacados que deixam cair chuva dentro do veículo são alguns dos problemas pelos quais os usuários de transporte público no Distrito Federal (DF) passam. Gabriela Regina da Cruz Silva, 19 anos, estudante universitária e moradora da cidade satélite de Sobradinho falou das péssimas instalações nos ônibus: “… tudo horrível, não se pode sentar direito porque, às vezes, tem até banco quebrado e não é só com a gente que tem problema, eu já peguei ônibus que num tinha estrutura para deficiente físico, como aquelas rampas especiais. Você via na hora que não tinha, e os poucos que tem, as pessoas não respeitam…”. Quando questionado sobre as instalações dos ônibus o representante da secretaria de transportes do DF, Valdemar Barbosa Moreira, 36 anos, negou os problemas citados, “não, as instalações são boas, o que pode acontecer é de um ou outro ônibus um pouco mais velho ainda rodando, ter problema, mas a maioria é novo, principalmente agora com o novo governador (José Roberto Arruda), ele trouxe esses mil novecentos e tantos ônibus novos pra Brasília, o governador passado (Joaquim Roriz), não fez nem perto disso, e todos tem essa instalação apropriada para deficiente físico, isso é obrigado por lei”.

Banco de ônibus pichado

Por Victor Correia
Instalações sujas

Atrasos

Outro problema enfrentado pelos usuários do transporte público são os constantes atrasos, os ônibus não tem um horário fixo para passar e quando as pessoas não conseguem pega-los, sofrem com uma demora de uma à uma hora e meia em média, para conseguir pegar outro, o usuário é lesado com a falta de regularidade. Antonia Nunes da Silva, 36 anos, empregada doméstica e moradora da cidade satélite de Ceilândia, disse que já perdeu reuniões importantes na escola dos filhos e tomou diversas chamadas no trabalho, por causa do atraso dos ônibus. Ela também citou as péssimas condições das instalações, disse que já aconteceu diversas vezes de estar indo para o trabalho e o ônibus ter problema no motor no meio do caminho, quando isso acontece todas as pessoas tem que descer e esperar o próximo ônibus chegar. A secretaria do transporte informou que os atrasos decorrem por causa do trânsito intenso em Brasília, disse que os motoristas são obrigados a parar em todas as paradas de ônibus, voltou a afirmar que os ônibus em circulação no DF são todos novos e que tem um sistema de fiscalização realizado pela DF trânsito em todas as rodoviárias e nas ruas do DF. A secretaria de transportes também disse que um novo projeto está sendo implementado para acabar com o problema dos engarrafamentos enfrentados pelos ônibus, ele se chama Linha Verde e consiste em uma série de pistas, onde só circularão ônibus, que serão instaladas ao longo das ruas de Brasília.   

A superlotação e a pouca quantidade de ônibus também fazem parte da enorme lista de problemas do sistema de transportes do DF. Linhas que conectam Brasília às cidades satélite estão em pouco número e a maior parte da população dessas cidades trabalha Plano Piloto, por isso em momentos de pico, como entrada e saída do trabalho, os ônibus lotam, a ponto de muita gente não conseguir pega-los por causa do excesso de pessoas. “Já tomei bronca do meu chefe também por culpa desses ônibus, tenho que chegar todo dia no meu trabalho as oito e quinze e já perdi a conta do número de vezes que tive que pedir desculpas para o meu chefe por causa do ônibus que chegava lotado de gente, ai o que se poda fazer né, tinha que sentar e esperar o próximo chegar, acabava chegando no serviço lá pelas dez da manhã”, disse Antonia Alves da Silva. Gabriela Regina da Cruz Silva também disse ter sofrido reclamações no emprego por causa por causa de atrasos ocasionados por superlotação dos ônibus e pela falta de horário. “Quando eu trabalhava na Caixa (Banco da Caixa Econômica Federal) eu sofria direto porque moro la em Sobradinho e o banco fica no plano (plano piloto). O caminho já é longo e sempre o ônibus vinha lotado de gente, tinha vezes que não dava pra pegar, ai esperava o outro ônibus chegar e demorava e pra piorar, quando a gente pegava, o motorista ainda vinha com ignorância, dizendo que ele num tinha culpa”.

Superlotação e poucos ônibus para atender todo mundo

Muitos dos profissionais do transporte público do DF não estão capacitados para atender a população, não tiram as dúvidas dos passageiros, dão informações erradas, são mal educados e muitas vezes até causam problemas nos equipamentos dos ônibus por imperícia ou falta de responsabilidade. Jéssica Alves, 19 anos, estudante e moradora do Riacho Fundo um, reclamou da falta de responsabilidade dos motoristas. “Um dia eu tava andando de ônibus e passei o caminho inteiro sentindo um cheiro de queimado, quando chegou na minha parada eu fui até  o motorista e perguntei se ele tava sentindo aquele cheiro e o cara teve a cara de pau de dizer que sim, que era ele que tava fazendo, tava dirigindo com o freio de mão puxado  pra ‘amaciar’ o motor”. A fonte disse que o motorista dirigia um ônibus “zebrinha” da linha Viplan. Representantes da Viplan disseram que nunca ouviram falar em casos desse tipo ocorrendo dentro da empresa e que se ocorressem, o motorista em questão seria punido por lesar a empresa.

O fato curioso do sistema de transportes de Brasília é que na cidade tem a passagem de ônibus mais cara do país, cerca de 80% das passagens custam R$ 3,00, e esse dinheiro parece não ser investido apropriadamente na melhoria do transporte público. Existem ônibus, que foram fabricados em 1990, rodando, hoje,2009, em Brasília e muitos deles tiveram alvará da fiscalização do DF trânsito para continuar rodando, sendo que por lei as empresas de transporte têm de renovar as suas frotas de sete em sete anos. A DF trânsito alega que não pode fazer nada com relação ao estado dos ônibus e que é de responsabilidade do governo estadual a compra e a manutenção de ônibus novos. A empresa também diz que esses ônibus têm que continuar rodando para suprir a necessidade de transporte por todo o estado e que se a situação é ruim com todos esses veículos antigos rodando, em termos de não haver transporte para todo mundo, sem eles seria muito pior. O grande problema é que esses ônibus antigos estão com muitos defeitos, alguns dos quais influenciam, negativamente até na segurança dos passageiros, como pneus carecas, escadas de acesso enferrujadas, chão do ônibus antigo e em algumas partes com o risco de rompimento. Até os trabalhadores das empresas de transporte sofrem com o problema do estado precário. Os motoristas dirigem perto do motor e muitos dos ônibus não têm a placa de vedação que impede que o calor do motor atinja o motorista, por isso sempre que esse acelera o carro, ele toma uma rajada de calor nas pernas, da potência de uma labareda.

Os ônibus antigos ainda contam com assentos de plástico, extremamente desconfortáveis; teias de aranha entre os bancos; carcaças de metal, que revestem os ônibus rachadas e placas de identificação ultrapassadas. Alguns veículos têm, ainda, placas do órgão de fiscalização do Departamento Metropolitano de Transporte Urbano do DF (DMTU), que já fechou há cinco anos, hoje é a DF trânsito que faz essa fiscalização.

As condições das rodoviárias e paradas de ônibus do DF podem ser incluídas também na lista de problemas do transporte público. A rodoviária do Plano Piloto está em péssimo estado de conservação. Os problemas incluem escadas rolantes que não funcionam, estrutura antiga do prédio, banheiros totalmente sujos e deteriorados, mendigos que dormem em locais de intenso trânsito de pessoas, ausência de bancos de espera para os usuários do transporte público, excesso de vendedores ambulantes nas dependências da rodoviária e paredes pichadas e com excesso de propagandas pregadas. Nas paradas de ônibus a situação é um pouco menos grave, no governo de Joaquim Roriz, muitas das paradas de ônibus do Plano Piloto foram reformadas, mas ainda há aquelas em estado precário, com bancos e paredes destruídos. Nas cidades satélite a situação é ainda pior, porque tem pontos de ônibus que não tem nem estrutura para que os passageiros possam se abrigar da chuva e do sol forte. Apenas uma placa no meio da rua sinaliza que esses locais são paradas de ônibus e mais nada.

A secretaria de transportes informou que já há um projeto para reformar todas as rodoviárias do DF, só que não há previsão de quando esse projeto sairá do papel e começará a ser posto em prática. 

Paradas de ônibus em estado precário

 Com a compra feita pelo GDF (Governo do Distrito Federal) de 1950 ônibus novos, renasce um pouco de esperança para aqueles que transitam de ônibus dentro do Plano Piloto, porque é dentro de Brasília que circula a maior parte desses ônibus. Todos os usuários de ônibus entrevistados falaram que ainda não viram nenhum dos ônibus novos circulando nas cidades que se encontram no entorno de Brasília. 

Brasília como todas as outras cidades grandes do Brasil sofre com problemas no transporte público, só que esse fato não pode servir de desculpa para que as autoridades não façam nada, nem a falta de dinheiro também pode ser usada como motivo, porque cobrando R$ 3,00  pela passagem de ônibus, dinheiro é o que não falta.

Segundo pesquisa feita pela secretaria de transportes, 700.000 pessoas, aproximadamente, usam o transporte público, atualmente, no Distrito Federal e esse número tende a aumentar com o passar dos anos, e a questão que fica é se a secretaria juntamente com as empresas de ônibus (Planeta, Viplan, Viva Brasília) e o governo do DF vão fazer alguma coisa para mudar todo esse panorama ou se as reclamações da população continuarão sem serem ouvidas pelas autoridades competentes.

 

 

Por: Camila A. Feldhaus e Victor M. Correia

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2 Respostas so far »

  1. 1

    Rafaela said,

    Olha esse texo me ajudou muuuito.
    E vc escreve mtu bem!

  2. 2

    taina said,

    nossa , parabens pelo texto que conta muito bem a triste realidade dos transportes de hoje em dia :)


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